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nada que faça sentido ou um lugar melhor - eu quero estar em qualquer outro lugar o tempo todo

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sábado, 24 de abril de 2010

Uma boa causa

Olhou-o por mais alguns segundos, tentou ter certeza de alguma coisa.
Mas convivia consigo mesma há tantos anos que já se conhecia o bastante para saber que certeza sempre estava em falta.
Não tinha palavra que completasse o que ela sentia. Nada para definir.
Conhecia milhões de palavras, uma vez que lia livros e mais livros - mas, naquele instante, palavra alguma caberia.
Começou a sentir a garganta coçar e logo soube: lágrimas estavam a caminho. Será que nada podia fazer para afastá-las?
Fixou os olhos nos fios elétricos, nas nuvens, nos postes e até nos pombos (detestava pombos). Não funcionou.
A vista ficou confusa e quente, molhando o rosto.
Seu vestido listrado era idiota. Seu cabelo marrom era idiota. A camiseta dos Beatles dele era idiota. Os pombos eram idiotas. A vida era idiota.
"Idiota", que coisa mais idiota de se dizer. Nem o irmão de 11 anos dela usava palavras como aquela.
Por que, meu deus, por que? Por que com ela as coisas eram tão mais difíceis? Por que ela era incapaz de dividir seu mundo com alguém que definitivamente estava disposto a aceitá-lo?
Egoísmo? Na verdade, não.
Era consideração. Não achava justo que um mundo tão complicado e cheio de coisas sem sentido tivesse que ser compartilhado.
Sabia que era seu, e somente seu, o dever de zelar por tal mundo.
E sabia da grande chance de jamais existir uma pessoa que ela considerasse capaz de compartilhar essa tarefa.
Enquanto isso, era tudo idiota demais para ser levado a sério.